A pouco mais de dois meses das Eleições 2026, a segurança da urna eletrônica volta ao centro do debate público. Utilizado no Brasil desde 1996, o equipamento passa por aproximadamente 40 procedimentos de fiscalização e auditoria antes, durante e depois da votação.
As informações foram divulgadas pela Agência Brasil, com base em explicações do secretário de Tecnologia da Informação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Júlio Valente.
Segundo o representante da Corte, a segurança do processo não depende apenas das equipes técnicas da Justiça Eleitoral. Partidos políticos, universidades, Polícia Federal, Congresso Nacional e outras instituições podem acompanhar diferentes fases de preparação dos sistemas.
O primeiro turno das Eleições 2026 está marcado para 4 de outubro. Caso seja necessário, o segundo turno ocorrerá em 25 de outubro.
Testes simulam ataques aos sistemas
Uma das principais etapas de verificação é o Teste Público de Segurança dos Sistemas Eleitorais, também chamado de Teste Público da Urna.
Realizado no ano anterior ao pleito, o procedimento permite que investigadores apresentem planos para tentar encontrar vulnerabilidades nos sistemas de votação, apuração, transmissão e recebimento dos resultados.
Podem participar brasileiros com mais de 18 anos. Embora especialistas em tecnologia e pesquisadores sejam presença frequente, não é obrigatório ter formação específica na área.
A oitava edição do teste foi programada pelo TSE para 2025, como parte da preparação dos sistemas que serão utilizados nas eleições deste ano.
Quando uma possível fragilidade é encontrada, os técnicos do tribunal analisam o problema e desenvolvem medidas de correção. Posteriormente, os investigadores retornam para verificar se a vulnerabilidade foi efetivamente solucionada.
O objetivo é submeter os sistemas a tentativas controladas de ataque antes que sejam utilizados oficialmente pelos eleitores.
Código-fonte pode ser inspecionado
Outro mecanismo de fiscalização é a abertura do código-fonte dos programas eleitorais.
O código-fonte reúne as instruções que determinam como os sistemas funcionam. Sua análise permite verificar, por exemplo, como os votos são registrados, processados e contabilizados.
De acordo com o TSE, as entidades fiscalizadoras habilitadas podem examinar os componentes desenvolvidos para o processo eleitoral. Em junho, técnicos da Sociedade Brasileira de Computação realizaram uma inspeção nos códigos que serão utilizados em 2026.
Entre as instituições autorizadas a acompanhar a fiscalização estão partidos políticos, Congresso Nacional, Conselho Nacional de Justiça, Tribunal de Contas da União, Polícia Federal e universidades que tenham departamentos de tecnologia da informação.
Verificações continuam no dia da votação
A fiscalização não termina com a preparação dos equipamentos. No dia da eleição, antes da abertura das seções, os mesários emitem a chamada “zerésima”.
O documento demonstra que a urna não possui votos registrados antes do início da votação. O procedimento é realizado na presença dos integrantes da mesa receptora e pode ser acompanhado por fiscais das legendas.
Depois do encerramento, cada equipamento imprime o Boletim de Urna, documento que apresenta a quantidade de votos recebidos por candidatos, partidos, votos brancos e nulos naquela seção.
Esses boletins podem ser conferidos posteriormente com os dados divulgados pela Justiça Eleitoral, ampliando as possibilidades de verificação dos resultados.
Sistemas não são conectados à internet
As urnas utilizadas nas seções eleitorais funcionam de forma isolada e não dependem de conexão com a internet para registrar os votos.
Após o encerramento da votação, os resultados são gravados em uma mídia protegida e encaminhados para transmissão aos sistemas responsáveis pela totalização.
Segundo Júlio Valente, não existe registro comprovado de fraude provocada pela urna eletrônica desde sua implantação, em 1996.
O secretário sustenta que a combinação entre testes públicos, inspeção dos códigos, participação de instituições externas e conferência dos boletins permite que diferentes agentes acompanhem o processo eleitoral.
Debate ganhou dimensão diplomática
As explicações do TSE foram divulgadas após um episódio envolvendo representantes do governo dos Estados Unidos.
Segundo o Itamaraty, vistos de entrada no Brasil foram negados a dois integrantes do Departamento de Estado norte-americano depois que o governo brasileiro tomou conhecimento de um possível interesse em acompanhar o funcionamento das urnas.
Uma reportagem do jornal The Washington Post afirmou que representantes da gestão do presidente Donald Trump pretendiam levantar questionamentos sobre o sistema brasileiro. O Departamento de Estado negou que esse fosse o objetivo da missão.
Como parte das ações de transparência, o TSE marcou para 17 de agosto uma reunião com embaixadores, representantes diplomáticos e integrantes de organismos internacionais. O encontro deverá apresentar o funcionamento das urnas e as etapas de fiscalização adotadas nas eleições brasileiras.
A iniciativa ocorre em um momento no qual a confiança no processo eleitoral também se tornou tema político e diplomático. Para o eleitor, o principal efeito das auditorias é permitir que o registro e a contagem dos votos sejam acompanhados por instituições que não participam diretamente do desenvolvimento dos sistemas.
Conteúdo reproduzido da Agência Brasil.


