A jogadora Tifanny Abreu, do Osasco São Cristóvão Saúde, rompeu o silêncio sobre a nova política de elegibilidade adotada pela Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) e classificou a mudança como um “enorme retrocesso”. A regra restringe a categoria feminina das principais competições nacionais às atletas que atendam aos novos critérios biológicos definidos pela entidade.
Segundo reportagem do jornalista Lincoln Chaves, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Tifanny afirmou que pretende adotar as medidas possíveis para tentar permanecer no esporte feminino. A atleta, de 41 anos, foi a primeira mulher trans a disputar a Superliga Feminina.
“Não vou me calar e vou tomar todas as medidas possíveis para que a minha luta pelo direito à visibilidade, à inclusão e à prática do esporte não tenha sido em vão”, declarou.
Mudança atinge diretamente a carreira de Tifanny
A nova política foi publicada pela CBV na sexta-feira, 14 de agosto. Pela determinação, a elegibilidade na categoria feminina passa a ser verificada inicialmente por meio da triagem do gene SRY.
Atletas com resultado SRY negativo atendem ao critério estabelecido para competir entre mulheres. A política também prevê situações excepcionais específicas para determinadas condições de desenvolvimento sexual. Segundo o documento oficial, identidade de gênero, alteração do registro civil, tratamento hormonal, supressão de testosterona ou cirurgia não são suficientes, isoladamente, para modificar a categoria de elegibilidade.
Até então, a regulamentação permitia a participação de mulheres trans mediante o cumprimento de parâmetros relacionados, entre outros pontos, aos níveis de testosterona.
Para Tifanny, a alteração coloca em risco uma trajetória construída ao longo de aproximadamente uma década no voleibol feminino.
“A CBV está tirando tudo o que eu tenho, que é o amor pelo voleibol e a profissão que eu venho exercendo todos esses anos”, afirmou a jogadora, conforme a reportagem da EBC.
Ela acrescentou que os efeitos ultrapassam sua situação individual e alcançam clube, torcida, patrocinadores e outras pessoas trans que acompanham sua trajetória.
CBV diz seguir regras internacionais
Do outro lado da discussão, a CBV afirma que a mudança busca adequar as competições brasileiras ao atual cenário regulatório internacional.
Segundo a confederação, a nova política acompanha critérios adotados após mudanças promovidas pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), pela Federação Internacional de Voleibol (FIVB) e pela Confederação Sul-Americana de Voleibol (CSV). O presidente da CBV, Radamés Lattari, afirmou que a medida pretende equiparar os campeonatos nacionais às normas aplicadas internacionalmente.
O documento também determina que a triagem seja aplicada de maneira geral e uniforme, impedindo a escolha de atletas para testes somente com base em aparência física, expressão de gênero, nome ou exposição pública. A coleta pode ser feita por saliva, mucosa bucal ou sangue, sem a realização de exame físico para a categorização.
Regra já valerá para a próxima Superliga
A mudança tem aplicação prevista para a Superliga A e B da temporada 2026/2027, a Supercopa de 2026, a Copa Brasil de 2027, o Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia de 2027 e outras competições abrangidas pela política.
Apesar da alteração nacional, Tifanny continua podendo disputar o Campeonato Paulista neste momento. A Federação Paulista de Volleyball decidiu manter o regulamento existente quando a competição começou e informou que possíveis mudanças serão analisadas para os próximos torneios.
Foi nesse cenário que a oposta entrou em quadra no sábado (15), pelo Osasco, diante do Pinheiros. Ela marcou 19 pontos, mas a equipe foi derrotada por 3 sets a 2.
Osasco avalia situação jurídica
O Osasco também reagiu à alteração. O clube informou que foi surpreendido pela decisão e acionou seu departamento jurídico para analisar os impactos da nova política sobre Tifanny. A equipe ainda manifestou apoio à atleta.
Campeã da Superliga com o Osasco em 2025, Tifanny sustenta que continuará buscando meios para permanecer nas competições.
A nova regulamentação abre, assim, uma disputa que vai além das quadras. Enquanto a CBV sustenta que precisa adequar o voleibol brasileiro aos critérios internacionais de elegibilidade, Tifanny e seu clube avaliam os caminhos jurídicos disponíveis diante de uma regra que pode impedir a atleta de disputar as principais competições femininas nacionais.
Conteúdo reproduzido da Agência Brasil.


