A concentração das tarefas domésticas e do cuidado de filhos e familiares sobre as mulheres pode aumentar a vulnerabilidade diante da violência de gênero. Especialistas ouvidos pela Agência Brasil apontam que a falta de autonomia financeira, o isolamento social e a dependência emocional ajudam a explicar por que muitas vítimas encontram dificuldades para romper relações abusivas.
A discussão ganha destaque no momento em que a Lei Maria da Penha completa 20 anos. Sancionada em 7 de agosto de 2006, a legislação estabeleceu mecanismos para prevenir e enfrentar a violência doméstica e familiar contra a mulher.
Segundo reportagem do jornalista Bruno de Freitas Moura, da Agência Brasil, especialistas defendem que o combate à violência também passa por políticas capazes de dividir melhor as responsabilidades de cuidado e ampliar a independência econômica das mulheres.
Mulheres dedicam quase o dobro do tempo aos cuidados
Dados da Pnad Contínua de 2022 mostram a dimensão dessa diferença. As mulheres dedicavam, em média, 21,3 horas por semana aos afazeres domésticos e cuidados de pessoas. Entre os homens, eram 11,7 horas semanais.
Para a professora Thamires da Silva Ribeiro, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a sobrecarga pode manter mulheres por mais tempo dentro de casa e limitar oportunidades de trabalho, renda e convivência social.
Especialista em políticas de cuidado, Thamires relaciona diretamente a autonomia econômica à capacidade de uma mulher construir caminhos para deixar uma situação de violência.
Na avaliação da pesquisadora, políticas públicas voltadas à distribuição das tarefas de cuidado podem permitir maior acesso ao mercado de trabalho, renda própria, redes de acolhimento e outros espaços de convivência.
A professora também chama atenção para desigualdades que atingem de maneira mais intensa mulheres negras, historicamente mais expostas à precarização do trabalho e às responsabilidades de cuidado.
Política Nacional de Cuidados busca dividir responsabilidades
A criação da Política Nacional de Cuidados, instituída pela Lei nº 15.069/2024, aparece entre as iniciativas destinadas a reconhecer o trabalho de cuidado e estimular maior corresponsabilidade entre famílias, poder público, homens e mulheres.
A expectativa de especialistas é que medidas nessa área possam reduzir situações em que mulheres abandonam estudos, empregos e projetos profissionais para assumir praticamente sozinhas os cuidados dentro da família.
A especialista em geriatria e gerontologia Christine Silveira Abdalla, fundadora da ONG Associação Cuidadosa, destaca que essa realidade produz impactos que vão além da sobrecarga física.
Mulheres podem se afastar do mercado de trabalho, diminuir o contato com outras pessoas e ficar sem uma rede própria de proteção, fatores que podem aprofundar situações de dependência.
Brasil registrou mais de 1,5 mil feminicídios em 2025
Os números da violência reforçam a preocupação.
Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país registrou 1.571 vítimas de feminicídio em 2025, aumento de aproximadamente 4% na comparação com o ano anterior.
O número corresponde a uma média superior a quatro mortes por dia. Em oito de cada dez ocorrências, o autor era parceiro ou ex-parceiro da vítima.
O levantamento contabilizou ainda 286,3 mil registros de agressão doméstica, crescimento de 2,6%, além de 788,6 mil casos de ameaça.
Outro indicador que chama atenção é o descumprimento de medidas protetivas de urgência. Foram aproximadamente 132 mil ocorrências, alta de 16,7%.
As medidas protetivas estão entre os principais mecanismos previstos pela Lei Maria da Penha para afastar agressores e reduzir riscos enfrentados pelas vítimas.
Dependência não é apenas financeira
A dificuldade para deixar um relacionamento abusivo, no entanto, não está necessariamente associada apenas à falta de dinheiro.
A advogada e professora universitária Marilha Boldt, presidente da Comissão de Combate à Violência contra a Mulher da OAB-RJ, explica que mulheres com renda própria também podem permanecer presas a relações abusivas quando existe dependência psicológica ou controle financeiro exercido pelo parceiro.
Isso significa que uma vítima pode possuir salário elevado e, mesmo assim, não ter autonomia sobre o próprio dinheiro ou acreditar que não conseguirá reorganizar a vida sem o companheiro.
A violência psicológica também pode afetar a autoestima e a percepção que a própria mulher possui sobre sua capacidade de viver de maneira independente.
Esse processo ajuda a compreender por que o rompimento de um ciclo de violência pode exigir apoio jurídico, psicológico, social e econômico.
Pressão social também pode dificultar rompimento
A superintendente de Enfrentamento à Violência contra a Mulher do governo do Rio de Janeiro, Claudia Araujo, aponta que expectativas sociais construídas ao longo de décadas ainda colocam sobre as mulheres a responsabilidade de cuidar simultaneamente da casa, dos filhos, do companheiro e da própria atividade profissional.
Em determinados casos, a vítima que decide encerrar um relacionamento também enfrenta cobranças externas pela ruptura da estrutura familiar.
Para especialistas, essa pressão pode contribuir para o isolamento e dificultar pedidos de ajuda.
A Lei Maria da Penha representou uma mudança importante nesse cenário ao estabelecer que a violência doméstica não deve ser tratada como um problema restrito à intimidade do casal.
Rede de proteção é considerada essencial
Duas décadas depois da entrada em vigor da legislação, especialistas avaliam que o desafio é fazer com que a estrutura prevista em lei alcance efetivamente as vítimas.
Delegacias especializadas, Defensorias Públicas, Judiciário, serviços de assistência social e redes de acolhimento fazem parte desse sistema.
A orientação é que sinais de violência sejam tratados com seriedade tanto pela vítima quanto por familiares, amigos e pessoas próximas. O apoio externo pode ser decisivo para impedir a continuidade das agressões e permitir que a mulher encontre condições para deixar o ambiente de violência.
Nesse contexto, políticas de renda, emprego, moradia, creches e cuidado ganham relevância porque podem oferecer condições práticas para reconstrução da autonomia.
A discussão sobre os 20 anos da Lei Maria da Penha mostra, portanto, que o enfrentamento à violência contra a mulher vai além da punição aos agressores. Especialistas defendem que reduzir desigualdades dentro e fora de casa também é parte fundamental da prevenção.
Conteúdo reproduzido da Agência Brasil.


