A intensificação das secas em diferentes partes do planeta entrou no centro das discussões ambientais internacionais. Antes mais associada a regiões naturalmente áridas, a falta prolongada de chuvas agora avança sobre áreas da Amazônia, Europa, África e Ásia e será um dos principais temas da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), realizada em Ulaanbaatar, na Mongólia, até 28 de agosto.
Segundo reportagem do jornalista Rafael Cardoso, da Agência Brasil, com base em dados da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), a frequência e a duração das secas aumentaram quase 30% desde o ano 2000.
As projeções reforçam a dimensão do problema: até 2050, três em cada quatro pessoas no planeta poderão sentir algum impacto relacionado à seca. Antes disso, já em 2030, a demanda mundial por água poderá superar a oferta disponível em até 40%.
Amazonas aparece entre áreas sob maior pressão
No Brasil, todas as cinco regiões registraram algum nível de seca em julho de 2026. Pelo menos 157 municípios chegaram à classificação de seca severa, situação associada à queda significativa da umidade do solo, redução da água disponível para a vegetação e prejuízos à produção agrícola.
O acompanhamento é feito pelo Monitor de Secas, coordenado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), além dos levantamentos do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
O pesquisador José Antonio Marengo, do Cemaden, alertou que o cenário observado no país aponta para redução das chuvas combinada ao aumento das temperaturas, criando condições para um agravamento das estiagens nos próximos meses.
Na Amazônia, o risco ganha uma dimensão particular. A região, apesar de concentrar a maior bacia hidrográfica do planeta, enfrentou secas históricas em 2023 e 2024, quando rios atingiram níveis mínimos em diferentes localidades.
Os efeitos ultrapassaram a questão ambiental. Comunidades ficaram isoladas, embarcações tiveram dificuldades para navegar e o transporte de alimentos e medicamentos foi comprometido.

Territórios indígenas sofrem avanço da seca
Dados citados pela Agência Brasil mostram ainda uma expansão rápida da seca sobre territórios tradicionais.
Entre junho e julho, o número de territórios indígenas atingidos pela seca severa saltou de três para 17. Entre as áreas onde houve agravamento estão regiões ligadas aos distritos sanitários especiais indígenas do Alto Rio Negro e de Parintins, no Amazonas.
A situação também piorou em assentamentos rurais. O número de áreas atingidas pela seca extrema passou de duas para 44, enquanto aquelas afetadas pela seca severa aumentaram de 102 para 309.
Amazonas, Pará, Tocantins, Mato Grosso e Rondônia aparecem entre os estados com maior concentração dessas áreas.
O impacto tende a ser mais forte entre populações diretamente dependentes dos recursos naturais, como indígenas, ribeirinhos, quilombolas, pescadores artesanais, extrativistas e agricultores familiares.
Quando o rio seca, problema chega à mesa
O coordenador-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Toya Manchineri, destacou que as mudanças já interferem diretamente no cotidiano das comunidades amazônicas.
“Quando o rio seca, o peixe desaparece, o barco não chega e a floresta, antes úmida, passa a queimar.”
O cenário evidencia uma cadeia de impactos. A redução dos níveis dos rios afeta o transporte, limita o acesso a alimentos e serviços, prejudica atividades econômicas e também aumenta a vulnerabilidade da floresta aos incêndios.

El Niño aumenta preocupação para os próximos meses
Outro fator de preocupação é a previsão de fortalecimento do El Niño entre agosto e outubro de 2026.
O fenômeno ocorre com o aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial e interfere nos padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta.
Segundo as informações reunidas pela Agência Brasil, episódios muito fortes de El Niño estão historicamente associados à redução das chuvas e ao aumento das temperaturas no Norte, Nordeste e em partes do Centro-Oeste brasileiro.
O pesquisador Humberto Alves Barbosa, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), avalia que essas condições podem afetar tanto a umidade do solo quanto a vazão dos rios, aumentando a possibilidade de secas prolongadas, queimadas e até das chamadas “secas-relâmpago”.
Esse último fenômeno se desenvolve rapidamente, geralmente associado a períodos de calor intenso, e pode provocar impactos relevantes em poucos dias ou semanas.
Debate passa da emergência para a prevenção
A discussão na COP17 busca justamente mudar a estratégia de enfrentamento ao problema.
Em vez de concentrar recursos apenas quando a seca já provoca prejuízos, especialistas e organismos internacionais defendem investimentos antecipados em monitoramento, alertas precoces, recuperação de áreas degradadas, gestão dos recursos hídricos e preparação das comunidades.
O Brasil integra desde 2024 a Aliança Internacional para a Resiliência à Seca (IDRA), articulação criada para ampliar a cooperação entre países e incentivar investimentos em medidas de adaptação.
A mudança de abordagem ganha importância especialmente para a Amazônia. Em uma região onde rios funcionam como estradas e sustentam alimentação, abastecimento e geração de renda, uma seca mais intensa não representa apenas um problema ambiental: pode transformar rapidamente a rotina de milhares de famílias.
Conteúdo reproduzido da Agência Brasil.


