Planeta mais quente ameaça alimentos, saúde e economia com avanço acima de 1,5°C

Ondas de calor, secas, chuvas extremas e perdas agrícolas podem se intensificar; especialistas defendem redução acelerada das emissões e proteção das florestas.
Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

O avanço do aquecimento global para níveis superiores a 1,5°C em relação ao período pré-industrial aumenta o risco de impactos diretos na produção de alimentos, na saúde da população, na infraestrutura das cidades e na economia. O alerta ganhou força nesta quarta-feira (2), após novas projeções climáticas das Nações Unidas indicarem que o planeta está cada vez mais próximo de permanecer acima de uma das principais referências estabelecidas para conter os efeitos mais graves das mudanças climáticas.

As informações foram divulgadas em reportagem de Rafael Cardoso, da Agência Brasil, que ouviu pesquisadores e especialistas das áreas ambiental e econômica sobre as consequências de um mundo mais quente.

Dados recentes da Organização Meteorológica Mundial apontam que há 91% de probabilidade de pelo menos um ano entre 2026 e 2030 registrar temperatura média global temporariamente superior a 1,5°C acima dos níveis de 1850 a 1900.

A ultrapassagem em um ano isolado não significa, por si só, que a meta de longo prazo definida pelo Acordo de Paris tenha sido definitivamente perdida. O problema, segundo especialistas, está na frequência e na duração desses períodos de temperatura elevada.

Quanto mais intenso e prolongado for o aquecimento, maiores tendem a ser os danos provocados por ondas de calor, estiagens severas, chuvas intensas, enchentes e outros eventos extremos.

A presidente do Comitê Diretor do Sistema Global de Observação do Clima, ligado à Organização Meteorológica Mundial, Thelma Krug, destacou que o tempo de permanência acima de 1,5°C será decisivo para determinar a dimensão dos impactos.

Segundo ela, a temperatura média global já se encontra aproximadamente 1,37°C acima do período pré-industrial, com avanço estimado em cerca de 0,26°C por década caso o atual ritmo seja mantido.

Nesse cenário, a janela para evitar um aquecimento ainda mais elevado está ficando menor.

Pressão sobre a agricultura e a saúde

Os efeitos da mudança do clima não ficam restritos ao meio ambiente. Uma sequência maior de secas ou chuvas fora do padrão pode afetar diretamente as lavouras, reduzir a produtividade e aumentar custos para produtores.

Na prática, essas perdas podem chegar também ao consumidor, especialmente por meio de oscilações na oferta e nos preços dos alimentos.

O calor extremo representa outro fator de preocupação. Temperaturas mais altas aumentam a exposição da população a problemas relacionados ao estresse térmico e também ampliam a pressão sobre sistemas de saúde e de energia.

Para regiões ambientalmente sensíveis, como a Amazônia, o debate também envolve a manutenção da floresta e o combate ao desmatamento, considerados elementos importantes na estratégia para conter as emissões de gases de efeito estufa.

O diretor executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), André Guimarães, defende medidas urgentes para reduzir o avanço das temperaturas.

Entre as ações apontadas pelo especialista estão a diminuição da queima de combustíveis fósseis, o combate à conversão de áreas florestais e mudanças na relação entre atividade econômica e recursos naturais.

Prejuízo global já chega à economia

A mudança do clima também representa uma conta crescente para governos, empresas e famílias.

Segundo o economista Sergio Margulis, do Instituto Internacional para Sustentabilidade e professor da PUC-Rio, prejuízos associados a impactos sobre infraestrutura, agricultura, saúde e energia já correspondem a aproximadamente 2% do Produto Interno Bruto mundial.

O especialista estima que o mundo invista atualmente cerca de US$ 2 trilhões na descarbonização, mas considera necessário elevar esse patamar para aproximadamente US$ 5 trilhões ou mais.

A lógica é tentar reduzir as emissões antes que os prejuízos provocados pelos eventos climáticos exijam investimentos ainda maiores em reconstrução e adaptação.

Além da transição energética, cidades e países precisarão aumentar gastos com infraestrutura preparada para enchentes, secas, calor extremo e outras consequências de mudanças no clima.

Reduzir emissões segue como principal desafio

Especialistas avaliam que medidas de adaptação serão indispensáveis, mas não substituem a necessidade de reduzir a quantidade de gases de efeito estufa lançada na atmosfera.

A Organização das Nações Unidas reforçou nesta semana que cada fração adicional de grau aumenta riscos para vidas, meios de subsistência e ecossistemas, enquanto cortes rápidos de emissões ainda podem limitar a duração e a intensidade da ultrapassagem de 1,5°C.

Para o coordenador de política internacional do Observatório do Clima, Claudio Angelo, abandonar a tentativa de trazer a temperatura global de volta ao limite considerado mais seguro não deve ser tratado como alternativa.

O desafio passa principalmente pela redução da dependência de combustíveis fósseis e pelo cumprimento das metas climáticas assumidas pelos países.

Mesmo diante das projeções mais preocupantes, cientistas ressaltam que a dimensão do problema futuro ainda depende das decisões tomadas agora. Quanto menor for o aquecimento adicional, menores serão os riscos de perdas humanas, econômicas e ambientais nas próximas décadas.

Conteúdo reproduzido da Agência Brasil.

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