A escalada da guerra entre Estados Unidos e Irã já começa a produzir efeitos a milhares de quilômetros do Oriente Médio. No Amazonas, empresas de navegação afirmam que a alta do diesel está pressionando o custo do transporte fluvial, principal responsável pelo abastecimento de alimentos, combustíveis e outros produtos em grande parte dos municípios do interior.
O alerta foi feito pelo Sindicato das Empresas de Navegação Fluvial no Estado do Amazonas (Sindarma), em informações divulgadas pela Press Comunicação Estratégica. Segundo a entidade, o combustível representa entre 40% e 50% da planilha de custos das operações com balsas no estado.
A pressão ocorre justamente quando o Amazonas entra no período de descida dos rios, cenário que tende a tornar as viagens mais longas, reduzir a quantidade de carga transportada e elevar ainda mais as despesas das empresas.
Petróleo disparou com tensão no Oriente Médio
O mercado internacional de petróleo passou por forte volatilidade nas últimas semanas diante dos ataques e das restrições ao transporte de energia no Oriente Médio.
Em julho, o petróleo Brent chegou a ultrapassar os US$ 95 por barril durante a intensificação dos confrontos entre Estados Unidos e Irã. Em 22 de julho, por exemplo, o barril atingiu máxima de US$ 95,47, segundo a Reuters.
O preço, entretanto, recuou posteriormente. Nesta sexta-feira (7), o Brent era negociado em torno de US$ 83,33, ainda sob influência das negociações entre Estados Unidos e Irã e das incertezas envolvendo o Estreito de Ormuz.
A região é estratégica para o mercado mundial de energia. As tensões em Ormuz, somadas às ameaças contra a navegação no Mar Vermelho, fizeram aumentar o temor de interrupções na oferta internacional de petróleo.
[FOTO 2 — Navios petroleiros no Estreito de Ormuz para contextualizar o conflito]
Diesel pesa nas contas das balsas
No Amazonas, o impacto chega principalmente por meio do combustível utilizado pelas embarcações.
Segundo Madison Nóbrega, vice-presidente do Sindarma, o preço do diesel utilizado pelo setor permanece acima do patamar observado antes do conflito.
“No fim das contas, os custos aumentaram 100%. O preço do diesel está 40% mais caro do que em janeiro e os custos operacionais também subiram e vão aumentar mais com a seca”, afirmou Nóbrega, em declaração divulgada pela Press Comunicação Estratégica.
O dirigente acrescentou que as empresas ainda tentam evitar reajustes imediatos nos fretes, mas admite que a situação pode mudar caso os custos continuem aumentando.
“Até o momento, as transportadoras estão segurando reajustes, mas se piorar a questão geopolítica, o custo do frete também subirá para manter as operações”, declarou.
A eventual elevação do frete ganha importância no Amazonas porque diversas cidades dependem diretamente das embarcações para receber mercadorias provenientes de Manaus e de outros centros de distribuição.
Seca amplia pressão sobre transporte
Além do cenário internacional, as empresas enfrentam um segundo componente: a estiagem amazônica.
A redução do nível dos rios interfere diretamente na quantidade de carga que pode ser levada pelas embarcações e pode obrigar empresas a adaptar rotas e operações.
A preocupação não está restrita ao Sindarma. Em julho, a companhia de logística Maersk informou que acompanha a possibilidade de restrições à navegação durante a seca de 2026, especialmente a partir de outubro. A empresa alertou para possibilidade de redução da capacidade das embarcações e aumento dos custos logísticos caso o cenário hidrológico se agrave.
A S&P Global também passou a considerar, desde julho, custos adicionais relacionados à estiagem na formação de preços de paridade de importação de diesel, gasolina e combustível de aviação em Manaus. A medida considera despesas adicionais provocadas pela redução do calado dos rios durante o período seco.
Viagens mais longas e menos carga
De acordo com o Sindarma, determinadas rotas ficam mais complexas durante a seca. Na bacia do rio Madeira, por exemplo, limitações operacionais podem aumentar o tempo necessário para transportar mercadorias.
“O tempo das viagens dobra nesta época. Isso significa que os custos com combustíveis, equipamentos, tripulação e escoltas armadas contratadas pelas empresas para evitar os ataques piratas também dobram, enquanto a quantidade de carga transportada diminui porque o rio está menos profundo”, declarou Madison Nóbrega.
Na avaliação do dirigente, a combinação entre combustível mais caro e dificuldades de navegação pode pressionar toda a cadeia logística.
“Somando esses fatores com a guerra, o transporte fluvial no Amazonas e o abastecimento dos municípios pode viver um período muito complicado que vai se refletir na sociedade”, acrescentou.
Sindarma quer redução do ICMS durante a seca
Para tentar reduzir a pressão sobre os preços dos fretes, o sindicato defende que o Governo do Amazonas avalie uma redução temporária do ICMS incidente sobre o diesel durante os meses mais críticos da estiagem.
Segundo as informações divulgadas pela Press Comunicação Estratégica, o Sindarma prepara um estudo técnico para apresentar ao governo estadual. O documento deverá reunir dados sobre consumo de combustível e custos das operações durante a seca.
A entidade argumenta que uma eventual redução tributária ajudaria as transportadoras a absorver parte do aumento das despesas sem transferir integralmente o custo ao frete.
Até a publicação desta matéria, não havia anúncio do Governo do Amazonas sobre eventual mudança no ICMS do diesel nos moldes defendidos pelo sindicato.
O efeito sobre o consumidor dependerá justamente de quanto tempo as empresas conseguirão absorver os custos adicionais. Se houver reajuste do frete, a pressão poderá avançar pela cadeia de distribuição e alcançar produtos comercializados nos municípios que dependem das hidrovias para manter o abastecimento.


