Especialistas alertam para risco de ações cibernéticas dos EUA nas eleições brasileiras

Memorando assinado por Donald Trump amplia uso de ferramentas digitais contra crimes transnacionais; analistas ouvidos pela Agência Brasil avaliam que novas capacidades podem elevar riscos de interferência externa.
Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil

Especialistas em geopolítica e tecnologia levantaram um alerta sobre possíveis tentativas de influência externa nas eleições brasileiras de outubro, especialmente por meio de operações cibernéticas e do uso de plataformas digitais. A avaliação foi apresentada em reportagem da Agência Brasil, publicada nesta terça-feira (18), e ocorre após o governo dos Estados Unidos ampliar oficialmente suas capacidades de atuação contra crimes praticados no ambiente digital.

O alerta ganhou força depois que o presidente norte-americano, Donald Trump, assinou, em 12 de agosto, um memorando de segurança nacional que prevê cooperação entre autoridades federais dos Estados Unidos e empresas privadas em operações contra organizações criminosas transnacionais.

O documento existe e foi publicado pela própria Casa Branca. O governo norte-americano afirma que o objetivo da medida é combater grupos responsáveis por fraudes e ataques cibernéticos contra cidadãos dos Estados Unidos.

Não há, no memorando, anúncio de uma operação destinada a interferir nas eleições brasileiras. A possibilidade de uso dessas capacidades em disputas políticas no Brasil é uma avaliação dos especialistas entrevistados pela Agência Brasil.

Memorando amplia capacidade de atuação no ambiente digital

Entre as medidas previstas está a utilização de ferramentas cibernéticas para interromper operações de organizações criminosas que atuem fora do território norte-americano.

A Casa Branca informa que as ações podem envolver cooperação com o setor privado e operações destinadas a acessar, interromper ou neutralizar sistemas usados por organizações consideradas responsáveis por crimes contra cidadãos norte-americanos.

Para o pesquisador Reynaldo Aragon, ouvido pela Agência Brasil, a amplitude desse tipo de instrumento exige atenção das autoridades brasileiras.

Segundo ele, tecnologias capazes de acessar sistemas, analisar informações e realizar operações digitais poderiam, em determinados cenários, ser utilizadas para produzir informações sobre pessoas ou influenciar ambientes políticos.

A afirmação representa uma análise do pesquisador e não uma constatação de que esse tipo de operação esteja sendo realizado contra candidatos brasileiros.

Analistas citam risco de ações difíceis de identificar

Outro ponto destacado pelos especialistas é a dificuldade de identificar a origem de determinadas operações digitais.

Aragon avalia que campanhas de influência podem ir além do impulsionamento de conteúdos nas redes sociais e envolver diferentes mecanismos tecnológicos.

Para o pesquisador, o cenário reforça a necessidade de o Brasil ampliar sua autonomia em infraestrutura tecnológica e reduzir a dependência de sistemas considerados estratégicos.

Big techs entram no debate sobre influência política

O professor de história e especialista em geopolítica Euclides Vasconcelos, também ouvido pela Agência Brasil, chamou atenção para o papel das grandes empresas de tecnologia na circulação de informações durante processos eleitorais.

Segundo ele, plataformas digitais possuem capacidade de alcançar segmentos específicos da população, influenciar debates e ampliar determinados conteúdos.

O funcionamento dos algoritmos das redes sociais e o poder das plataformas sobre a distribuição de informações vêm colocando as empresas de tecnologia no centro das discussões internacionais sobre desinformação, campanhas eleitorais e soberania digital.

Na avaliação apresentada à Agência Brasil, Vasconcelos considera possível que disputas geopolíticas envolvendo Estados Unidos e Brasil também tenham reflexos no ambiente eleitoral.

Relação entre Brasil e Estados Unidos amplia tensão política

O debate ocorre em meio a um período de atritos entre os governos brasileiro e norte-americano.

Em julho de 2025, a Casa Branca publicou uma ordem relacionada ao Brasil na qual afirmou que determinadas decisões do governo e das instituições brasileiras poderiam comprometer, na avaliação norte-americana, a realização de eleições livres em 2026.

O documento fez parte das justificativas apresentadas pelo governo Trump para medidas comerciais aplicadas ao Brasil.

Desde então, questões comerciais, diplomáticas e políticas têm ampliado as divergências entre os dois países.

Segurança digital ganha peso às vésperas das eleições

A discussão coloca a segurança cibernética entre os temas estratégicos para as eleições de 2026.

Além da proteção das urnas e dos sistemas oficiais da Justiça Eleitoral, especialistas apontam que o desafio envolve também campanhas de desinformação, manipulação de conteúdos, ataques contra instituições e uso de dados para direcionar mensagens políticas.

Nesse cenário, o ponto central do alerta apresentado pelos analistas é a necessidade de reforçar mecanismos capazes de identificar operações digitais e proteger sistemas considerados sensíveis.

Até o momento, as informações apresentadas não demonstram que o governo dos Estados Unidos esteja realizando uma operação cibernética para interferir nas eleições brasileiras. O alerta publicado pela Agência Brasil se baseia na avaliação dos especialistas sobre riscos potenciais decorrentes das novas capacidades anunciadas pelo governo norte-americano.

Conteúdo reproduzido da Agência Brasil.

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