A corrida entre China e Estados Unidos pelo domínio da inteligência artificial entrou em uma nova etapa. Além de desenvolver modelos cada vez mais avançados, as duas maiores potências econômicas do planeta agora disputam quais países terão acesso à tecnologia, quem fornecerá os equipamentos necessários e quais regras serão adotadas internacionalmente.
De um lado está a Pax Silica, articulação liderada por Washington e direcionada a aliados considerados confiáveis. Do outro, a China apresenta a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico), com uma proposta aberta a países interessados em participar da governança global da tecnologia.
As duas iniciativas revelam que a disputa pela IA vai muito além de aplicativos e ferramentas digitais. O embate envolve semicondutores, minerais críticos, energia, centros de processamento de dados, infraestrutura de telecomunicações e influência geopolítica.
As informações foram divulgadas pela Agência Brasil, em reportagem do jornalista Lucas Pordeus León.
Estados Unidos apostam em grupo de aliados
Criada pelo governo dos Estados Unidos em dezembro de 2025, a Pax Silica busca construir uma rede internacional formada por países alinhados à Casa Branca.
A iniciativa é apresentada pelo Departamento de Estado norte-americano como uma estratégia para proteger as cadeias produtivas da inteligência artificial e fortalecer a segurança econômica entre aliados. O projeto abrange áreas como produção de chips, minerais críticos, energia, fabricação avançada e infraestrutura de dados.
Na prática, a proposta pretende garantir que os componentes essenciais para o funcionamento da IA sejam produzidos, transportados e utilizados dentro de uma rede considerada segura pelos Estados Unidos.
A Pax Silica reúne atualmente países da Europa, da Ásia, do Oriente Médio, da Oceania e da América Latina. A expansão do grupo reforça a tentativa norte-americana de reduzir a dependência de produtos e tecnologias provenientes de países que não fazem parte de sua esfera de alianças.
Para os Estados Unidos, essa coordenação poderia evitar interrupções no fornecimento de chips, equipamentos, energia e matérias-primas. Críticos do modelo, no entanto, alertam que a estratégia pode concentrar o acesso às tecnologias mais avançadas em um grupo limitado de nações.
Dependência tecnológica preocupa especialistas
O especialista em governança de inteligência artificial Ettore Arpini, ouvido pela Agência Brasil, afirma que a concentração das principais ferramentas em poucas empresas e países representa um risco para economias dependentes de sistemas estrangeiros.
Isso ocorre porque grande parte dos modelos mais conhecidos pertence a empresas norte-americanas, como OpenAI, Google e Anthropic. O acesso a essas plataformas depende das condições comerciais, técnicas e políticas estabelecidas pelas companhias e pelo país onde estão instaladas.
Em um cenário de aumento das tensões internacionais, restrições comerciais ou sanções poderiam limitar o funcionamento dessas tecnologias em determinados mercados. Países que utilizam sistemas estrangeiros em setores estratégicos poderiam enfrentar dificuldades caso o acesso fosse interrompido.
China cria alternativa com participação do Brasil
Como contraponto à articulação norte-americana, a China liderou a criação da Waico, formalizada em 16 de julho de 2026, em Xangai.
O acordo de criação foi assinado por 29 países, entre eles o Brasil. A organização terá sede na cidade chinesa e funcionará como uma entidade intergovernamental voltada à cooperação internacional em inteligência artificial.
Também fazem parte da iniciativa países como Rússia, Indonésia, África do Sul, Paquistão, Cazaquistão, Quênia, Etiópia, Moçambique, Venezuela e Cuba.
A proposta chinesa defende maior participação das nações em desenvolvimento nas decisões internacionais sobre inteligência artificial. A Waico também promete incentivar a redução de barreiras tecnológicas e ampliar o acesso a sistemas de código aberto.
Durante o lançamento da organização, o governo chinês apresentou a IA como uma tecnologia que não deveria permanecer concentrada em poucas empresas ou países. A estratégia busca aproximar Pequim principalmente das nações que ainda não possuem capacidade própria para desenvolver modelos avançados.
Código aberto está no centro da proposta chinesa
Uma das principais diferenças entre os dois modelos está no acesso aos sistemas de inteligência artificial.
Nos programas de código fechado, o funcionamento interno da tecnologia permanece sob controle da empresa proprietária. Usuários, empresas e governos utilizam o sistema mediante autorização, assinatura ou pagamento pelo processamento das informações.
Já os modelos de código aberto podem ser examinados, modificados e instalados em servidores próprios, dependendo da licença adotada. Isso permite que universidades, empresas e governos adaptem a ferramenta às suas necessidades sem manter todos os dados sob controle direto do fornecedor original.
A estratégia chinesa procura apresentar esse formato como uma alternativa mais acessível, especialmente para países do chamado Sul Global. Pequim também tenta se posicionar como fornecedora de equipamentos, chips, sistemas de armazenamento e infraestrutura necessários para executar esses modelos.
Especialistas ressaltam, porém, que código aberto não significa independência automática. Para utilizar a tecnologia em larga escala, os países precisam de centros de dados, energia, profissionais qualificados, equipamentos avançados e capacidade de processamento.
Sem essa estrutura, uma nação pode deixar de depender do software de uma potência, mas continuar dependente dos chips, servidores e serviços oferecidos por outra.
Disputa também envolve interesses comerciais
Apesar do discurso de cooperação internacional, a Waico também atende aos interesses econômicos e estratégicos da China.
Quanto mais países utilizarem modelos desenvolvidos por empresas chinesas, maior será a demanda por equipamentos, semicondutores e infraestrutura produzidos ou financiados por Pequim.
A mesma lógica está presente na Pax Silica. Ao reunir aliados em torno de uma cadeia considerada confiável, os Estados Unidos ampliam o espaço para empresas norte-americanas e limitam a presença de concorrentes em setores estratégicos.
A rivalidade tecnológica ganhou força após sucessivas restrições impostas por Washington à venda de chips avançados para empresas chinesas. Em resposta, Pequim acelerou investimentos em semicondutores, modelos próprios e sistemas capazes de operar sem componentes norte-americanos.
O que está em jogo para o Brasil
A participação brasileira na criação da Waico aproxima o país da proposta chinesa de cooperação tecnológica, mas o governo brasileiro sustenta que não pretende se tornar dependente exclusivamente de um dos blocos.
A posição defendida é manter diálogo com diferentes países enquanto o Brasil desenvolve sua própria soberania digital.
Isso significa ampliar a capacidade nacional de armazenar dados, produzir conhecimento, formar profissionais, instalar centros de processamento e desenvolver modelos de inteligência artificial adaptados à realidade brasileira.
O desafio também envolve a proteção de informações públicas e privadas. Quando dados estratégicos são processados em plataformas estrangeiras, o país fica sujeito às regras comerciais, técnicas e jurídicas estabelecidas fora do território nacional.
A escolha entre ferramentas norte-americanas ou chinesas, portanto, não encerra o problema da dependência. Para especialistas, a autonomia dependerá da capacidade brasileira de construir infraestrutura própria e estabelecer regras claras para o uso da tecnologia.
IA se torna instrumento de poder global
A criação da Pax Silica e da Waico mostra que a inteligência artificial passou a ocupar um espaço semelhante ao de outros setores estratégicos, como petróleo, energia nuclear, telecomunicações e indústria de defesa.
Quem controlar os chips, os grandes bancos de dados, os modelos mais avançados e a infraestrutura de processamento terá influência direta sobre a economia mundial nas próximas décadas.
Para países como o Brasil, o cenário abre oportunidades de cooperação e acesso a novas tecnologias. Ao mesmo tempo, exige cautela para que a entrada em uma aliança internacional não resulte apenas na substituição de uma dependência tecnológica por outra.
A disputa entre Estados Unidos e China ainda está em formação, mas já indica que o futuro da IA será definido não apenas pela capacidade de criar sistemas inteligentes, mas também por quem estabelecerá as regras, fornecerá os equipamentos e controlará o acesso à tecnologia.
Conteúdo reproduzido da Agência Brasil.


