Cavalo extinto na natureza volta à Mongólia e vira símbolo de restauração

Takhi desapareceu de seu habitat por décadas, mas projeto internacional conseguiu reintroduzir a espécie; recuperação ocorre em meio aos debates da COP17 sobre proteção e restauração das terras.
Foto: Hustai National Park / Divulgação

Um animal que chegou a desaparecer completamente da natureza voltou a correr livre pelas estepes da Mongólia e se tornou um dos principais exemplos de recuperação ambiental do país. Atualmente, 354 cavalos selvagens takhi vivem no Parque Nacional Hustai, resultado de um programa de reintrodução iniciado há mais de três décadas.

Conhecido internacionalmente como cavalo-de-Przewalski, o takhi é considerado o único cavalo verdadeiramente selvagem ainda existente. A trajetória da espécie, que passou da extinção na natureza à formação de novas populações livres, ganhou relevância durante a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), realizada em Ulaanbaatar.

As informações foram divulgadas pelo jornalista Rafael Cardoso, enviado especial da Agência Brasil à Mongólia. A recuperação do animal se conecta diretamente a temas discutidos na conferência, como restauração de áreas degradadas, conservação da biodiversidade e redução da pressão sobre as pastagens.

Espécie faz parte da identidade da Mongólia

Mais do que um caso de conservação da fauna, o takhi ocupa um espaço importante na cultura mongol. A imagem do animal aparece em roupas, produtos, brinquedos, pinturas e marcas espalhadas pelo país.

Segundo o diretor do Parque Nacional Hustai, Dashpurev Tserendeleg, o nome takhi está associado a ideias de respeito, liberdade e resistência. Para os mongóis, a volta do animal ao território nacional também representa a recuperação de um símbolo que esteve próximo de desaparecer definitivamente.

O takhi possui características que o diferenciam dos cavalos domésticos. Enquanto os animais domesticados têm 64 cromossomos, o cavalo-de-Przewalski possui 66 cromossomos. Ele também é menor, apresenta focinho mais claro, crina curta e uma cauda menos volumosa.

O Parque Nacional Hustai também classifica o Przewalski como o último cavalo selvagem remanescente no mundo. A instituição registra que a reintrodução da espécie na Mongólia começou em 1992, após décadas em que sua sobrevivência dependeu de animais mantidos fora do habitat natural.

Da captura ao desaparecimento

O declínio da população se intensificou depois que o animal passou a despertar o interesse de colecionadores e zoológicos europeus no fim do século 19.

Entre 1897 e 1903, expedições retiraram 88 cavalos da Mongólia. Apenas 54 chegaram vivos aos destinos e somente 12 conseguiram deixar descendentes.

Ao mesmo tempo, a população que permanecia livre diminuía. O último registro de um takhi na Mongólia ocorreu em 1968. Sem novos avistamentos, a espécie acabou considerada extinta na natureza.

A partir daquele momento, os cavalos mantidos em zoológicos e reservas passaram a representar a única possibilidade de sobrevivência da linhagem.

Na década de 1970, conservacionistas holandeses organizaram um programa de reprodução para ampliar geneticamente a população existente e preparar uma futura tentativa de devolução dos animais ao ambiente selvagem.

Retorno começou em 1992

O momento decisivo ocorreu em 5 de junho de 1992, quando 15 cavalos chegaram à Mongólia para iniciar o processo de reintrodução em Hustai.

Até 2000, cinco operações de transporte levaram 84 animais ao país.

A soltura, porém, não foi imediata. Como diferentes gerações haviam vivido em regiões de clima mais ameno, os cavalos precisaram passar por áreas cercadas para reaprender a enfrentar condições naturais da Mongólia, incluindo neve intensa e a presença de predadores.

O processo apresentou resultados. Os animais começaram a formar grupos, reproduzir-se e ocupar novamente as estepes.

Hoje, além dos 354 exemplares em Hustai, existem outras duas populações reintroduzidas em áreas protegidas. De acordo com os dados relatados pela Agência Brasil, o número de takhis na Mongólia chega a aproximadamente 800 animais.

O caso se transformou em referência sobre como programas de reprodução, cooperação científica internacional e preservação de habitat podem recuperar uma espécie que havia desaparecido da natureza.

Novo desafio é preservar o habitat

O retorno dos cavalos, entretanto, não encerrou o trabalho de conservação.

Com cerca de 50 mil hectares, Hustai está entre os menores parques nacionais da Mongólia. A unidade é administrada por uma organização não governamental e depende principalmente da atividade turística: aproximadamente 90% da receita vem dos visitantes.

O desafio agora é manter as condições necessárias para que os cavalos sobrevivam e continuem aumentando sua população.

A pressão sobre as estepes cresce principalmente por causa das mudanças climáticas e da quantidade de animais domésticos criados no país.

Segundo o Censo 2025 do Escritório Nacional de Estatísticas citado pela Agência Brasil, a Mongólia possui cerca de 58 milhões de animais de rebanho, entre ovelhas, cabras, vacas e cavalos.

Em determinadas regiões, a concentração dos rebanhos aumenta a pressão sobre o solo e sobre as pastagens. Secas e invernos extremos agravam ainda mais o processo de degradação.

Takhi entra no debate da COP17

É justamente a relação entre conservação, uso da terra e sobrevivência das comunidades que aproxima a história do takhi das discussões realizadas na COP17.

A conferência reúne representantes internacionais em Ulaanbaatar para buscar medidas contra a desertificação, a degradação das terras e os impactos das secas, além de discutir financiamento e estratégias de restauração ambiental.

No entorno de Hustai, uma das iniciativas adotadas para diminuir a pressão sobre as pastagens consiste em diversificar a renda das famílias nômades.

Projetos ligados ao turismo comunitário, artesanato e agricultura em estufas recebem apoio como alternativas à dependência exclusiva da pecuária. A estratégia busca reduzir a necessidade de ampliar continuamente o número de animais criados pelos pastores.

A história do takhi mostra, portanto, que recuperar uma espécie depende de mais do que devolver animais ao ambiente. A manutenção das populações está ligada à conservação do território, ao equilíbrio no uso das pastagens e à criação de condições econômicas que permitam às comunidades locais conviver com a natureza sem ampliar a degradação.

Mais de três décadas depois do início da reintrodução, os cavalos que novamente percorrem livremente as estepes representam uma das experiências mais emblemáticas de restauração da Mongólia — e ajudam a dar dimensão prática a um dos principais desafios debatidos atualmente na COP17.

Conteúdo reproduzido da Agência Brasil.

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