ANPD manda Discord suspender lives no Brasil após falhas na proteção de menores

Plataforma terá três dias úteis para desativar transmissões ao vivo e recursos equivalentes; medida é preventiva e não bloqueia o Discord no país.
Foto: Valter Campanato / Agência Brasil

A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou nesta quarta-feira (12) que o Discord suspenda, em todo o Brasil, a ferramenta de transmissões ao vivo “Go Live” e outros recursos equivalentes de compartilhamento de vídeo. A empresa terá três dias úteis para comprovar o cumprimento da decisão.

A determinação é preventiva e permanecerá em vigor até que a plataforma demonstre ter adotado medidas técnicas e de segurança consideradas eficazes para reduzir riscos envolvendo crianças e adolescentes. O Discord poderá apresentar recurso à Superintendência de Fiscalização da ANPD no prazo de dez dias úteis.

Apesar da suspensão das lives, o Discord não será bloqueado no Brasil. Mensagens, servidores, chamadas de voz e outras funcionalidades não alcançadas pela decisão poderão continuar funcionando.

Decisão ocorre após investigação sobre riscos a menores

A medida foi tomada dentro de um processo de fiscalização aberto pela ANPD na sexta-feira (7) para investigar possíveis falhas na proteção de menores de 18 anos dentro da plataforma.

Segundo reportagem do jornalista Alex Rodrigues, da Agência Brasil, o procedimento ganhou força após o caso de uma adolescente de 13 anos, moradora de Naviraí, em Mato Grosso do Sul, que morreu em julho depois de ter sido induzida a tirar a própria vida durante uma transmissão ligada a uma comunidade no Discord.

O episódio também passou a ser investigado pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul e pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública por meio da Operação Lívia, que apura a atuação de grupos suspeitos de atrair crianças e adolescentes para comunidades virtuais e submetê-los a coerção psicológica, violência e práticas de automutilação.

Durante a primeira fase da operação, cinco adolescentes entre 13 e 17 anos foram apreendidos e um homem de 18 anos foi detido, segundo as informações divulgadas pelas autoridades e reproduzidas pela Agência Brasil.

ANPD aponta problemas na prevenção de abusos

Ao justificar a suspensão, a ANPD afirmou ter encontrado indícios considerados suficientemente graves de que as medidas adotadas pelo Discord não estavam conseguindo prevenir ou reduzir adequadamente situações de risco.

A avaliação da agência é de que a ferramenta de transmissão ao vivo vinha sendo utilizada de forma recorrente em episódios envolvendo violência, assédio e incentivo a práticas capazes de colocar menores em risco.

Outro ponto destacado é a própria arquitetura das transmissões. De acordo com a ANPD, o Discord não possui acesso ao conteúdo dos vídeos enquanto as lives acontecem, o que dificulta a análise audiovisual e a detecção de violações em tempo real.

Segundo o órgão regulador, a plataforma dependeria, nesses casos, de ferramentas automatizadas com limitações e de denúncias feitas por participantes dos próprios ambientes investigados.

Por esse motivo, além da suspensão do “Go Live”, a determinação prevê que a empresa impeça o uso de recursos equivalentes capazes de contornar a restrição.

Lives só poderão voltar após autorização

A retomada das transmissões não será automática após o cumprimento das exigências.

Para voltar a disponibilizar integralmente ou parcialmente a ferramenta no Brasil, o Discord deverá demonstrar que implementou mecanismos técnicos, medidas de segurança e regras de governança compatíveis com os riscos identificados pela fiscalização.

A reativação dependerá de autorização expressa da ANPD.

A decisão também não encerra o processo contra a empresa. Caso a fiscalização identifique irregularidades, poderão ser adotadas medidas corretivas e aplicadas sanções previstas no ECA Digital.

Entre as penalidades previstas está multa que pode chegar a R$ 50 milhões por infração, conforme informou a ANPD.

Discord afirma colaborar com autoridades

Em posicionamento reproduzido pela Agência Brasil, o Discord afirmou manter diálogo com autoridades brasileiras e disse atuar no combate a usuários e grupos que promovam violência.

A empresa também declarou possuir equipes voltadas à identificação e retirada de comunidades que violem suas regras e afirmou estar colaborando com as investigações relacionadas ao caso de Naviraí.

Em seus materiais oficiais, o Discord também informa que vem testando no Brasil mecanismos adicionais de verificação de idade, incluindo alternativas de confirmação para acesso a determinados conteúdos e configurações restritas.

A plataforma sustenta que suas políticas buscam oferecer proteções específicas para adolescentes sem retirar o acesso regular de usuários adultos aos demais recursos.

Caso amplia debate sobre segurança de crianças na internet

A suspensão determinada pela ANPD amplia a pressão sobre plataformas digitais para que mecanismos de proteção sejam incorporados desde a concepção das ferramentas, principalmente em serviços acessados por crianças e adolescentes.

No caso do Discord, a fiscalização seguirá mesmo após o bloqueio temporário das transmissões.

A decisão desta quarta-feira concentra-se especificamente nas lives e nos recursos equivalentes considerados de maior risco pela agência. Outros serviços da plataforma continuam disponíveis no país enquanto o processo administrativo avança.

Onde buscar ajuda

Pessoas que estejam passando por sofrimento emocional ou pensando em tirar a própria vida podem procurar familiares, pessoas de confiança e serviços de saúde. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, durante 24 horas por dia.

Conteúdo reproduzido da Agência Brasil.

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