Amazonas registra 47 indígenas assassinados e lidera casos de suicídio em 2025

Relatório do Cimi aponta avanço da violência contra povos indígenas no país; estado também teve 306 mortes de crianças indígenas de até 4 anos.
Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

O Amazonas aparece entre os estados com os indicadores mais graves de violência e vulnerabilidade envolvendo povos indígenas em 2025. Dados divulgados nesta quinta-feira (13) pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) mostram que 47 indígenas foram assassinados no estado, enquanto outros 77 morreram por suicídio e 306 bebês e crianças indígenas de até 4 anos perderam a vida ao longo do ano.

As informações fazem parte do relatório “Violência contra os Povos Indígenas no Brasil”, divulgado pelo Cimi e repercutido em reportagem da jornalista Paula Laboissière, da Agência Brasil. O levantamento registra aumento de diferentes formas de violência, invasões de territórios, conflitos fundiários e violações relacionadas à falta de assistência pública.

No cenário nacional, 258 indígenas foram assassinados em 2025, contra 211 no ano anterior. Roraima liderou a estatística, com 82 mortes, seguido pelo Amazonas, com 47, e Mato Grosso do Sul, com 37.

Amazonas concentra maior número de suicídios indígenas

Um dos dados mais preocupantes para o Amazonas está relacionado aos suicídios. Dos 215 casos registrados em todo o Brasil em 2025, 77 ocorreram no estado, o maior número entre todas as unidades da Federação.

Mato Grosso do Sul aparece na sequência, com 42 registros, e Roraima teve 37.

O relatório aponta ainda uma concentração das mortes entre indígenas mais jovens. Pessoas de 20 a 29 anos representaram 41% dos casos, enquanto indígenas com até 19 anos responderam por outros 34%.

Em comparação com 2024, quando o levantamento registrou 208 suicídios em todo o país, houve crescimento no número de ocorrências.

Mortalidade infantil indígena também preocupa no Amazonas

O levantamento mostra ainda que 1.024 bebês e crianças indígenas de até 4 anos morreram no Brasil em 2025, superando os 922 óbitos registrados no ano anterior.

Novamente, o Amazonas aparece no topo da estatística, com 306 mortes. Roraima teve 158 e Mato Grosso, 123.

Do total nacional, 586 mortes, o equivalente a 57%, foram provocadas por causas consideradas evitáveis. Entre elas estão gripe e pneumonia, com 104 registros, doenças infecciosas intestinais, com 85, e desnutrição, responsável por 32 mortes.

O relatório relaciona parte das dificuldades enfrentadas pelas comunidades à falta de estrutura adequada nos territórios, escassez de profissionais de saúde e medicamentos, além de limitações no acesso à água potável e ao saneamento básico.

Conflitos territoriais e assassinatos avançam no país

O documento reúne episódios de violência registrados em diferentes regiões brasileiras, principalmente em áreas marcadas por disputas pela demarcação de terras indígenas.

Entre os casos citados estão ataques contra indígenas Avá-Guarani no Paraná, a morte do indígena Pataxó Vitor Braz, na Bahia, e o assassinato do Guarani Kaiowá Vicente Fernandes, em Mato Grosso do Sul.

Segundo o Cimi, parte desses conflitos ocorre mesmo em territórios que já tiveram algum reconhecimento oficial do Estado, mas cujos processos de demarcação permanecem sem conclusão há anos.

A entidade também associa o cenário de insegurança aos debates envolvendo a Lei 14.701/2023, conhecida como Lei do Marco Temporal, além da pressão de atividades econômicas e projetos de infraestrutura sobre regiões ocupadas tradicionalmente pelos povos indígenas.

Mais de 1,2 mil casos envolvendo patrimônio indígena

No eixo relacionado à violência contra o patrimônio, o relatório contabilizou 1.276 ocorrências em 2025.

Desse total, 897 foram classificadas como casos de omissão ou demora na regularização de terras; 169 estavam ligados a conflitos por direitos territoriais; e outros 210 envolveram invasões, exploração ilegal de recursos naturais ou danos ao patrimônio indígena.

O estudo aponta que existem atualmente 1.443 terras e reivindicações territoriais indígenas identificadas no país. Dessas, 897 ainda dependem de alguma providência administrativa para avançar na regularização.

Em 582 casos, segundo o levantamento, sequer houve uma medida inicial para abertura do processo demarcatório.

Ao longo de 2025, nove terras tiveram relatórios de identificação e delimitação publicados pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), enquanto dez portarias declaratórias foram emitidas pelo Ministério da Justiça. Outras sete terras foram homologadas e cinco concluíram o processo com registro como patrimônio da União.

Falta de assistência amplia vulnerabilidade

O relatório também contabilizou 366 registros relacionados à omissão do poder público em diferentes áreas.

Foram 58 casos classificados como falta de assistência de forma geral, 111 envolvendo educação e 121 relacionados à saúde. O documento registrou ainda 62 mortes atribuídas à falta de atendimento de saúde e 14 ocorrências associadas ao consumo de álcool ou outras drogas.

Segundo o Cimi, algumas comunidades enfrentam dificuldade de acesso a água potável, saneamento, medicamentos, profissionais de saúde e estruturas adequadas de atendimento.

A entidade também chama atenção para a contaminação de rios e outros cursos d’água por agrotóxicos e pelo mercúrio utilizado no garimpo, situações que podem agravar as condições sanitárias de populações que dependem diretamente dessas fontes de água.

Povos indígenas isolados permanecem sob risco

Outro capítulo do relatório trata dos povos indígenas que vivem em isolamento voluntário.

A equipe especializada do Cimi identificou 119 registros de povos isolados no Brasil, mas apenas 28 são oficialmente confirmados pela Funai.

O levantamento aponta ainda invasões ou danos ao patrimônio em 20 terras indígenas onde existem 45 registros de grupos isolados.

Para o Cimi, a ausência de reconhecimento oficial de parte dessas populações dificulta a adoção de políticas específicas de proteção e aumenta os riscos provocados pela presença de invasores, exploração ilegal de recursos naturais e avanço de atividades econômicas sobre áreas remotas.

No Amazonas, os números envolvendo assassinatos, suicídios e mortalidade infantil colocam o estado no centro do debate sobre políticas de proteção territorial, saúde indígena e acesso a serviços públicos, especialmente em regiões do interior onde comunidades estão separadas por grandes distâncias e enfrentam dificuldades logísticas.

Conteúdo reproduzido da Agência Brasil.

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